Blog da Glória - Leopoldina (MG)

LITERATURA



 
 

Poesia

WISLAWA SZYMBORSKA*

Tradução: Ana Cristina Cesar 

Os filhos da epoca

Somos os filhos da época,
e a época é política.
Todas as coisas - minhas, tuas, nossas,
coisas de cada dia, de cada noite
são coisas políticas.
Queiras ou não queiras,
teus genes têm um passado político,
tua pele, um matiz político,
teus olhos, um brilho político.
O que dizes tem ressonância,
o que calas tem peso
de uma forma ou outra - político.
Mesmo caminhando contra o vento
dos passos políticos
sobre solo político.
Poemas apolíticos também são políticos,
e lá em cima a lua já nao dá luar.
Ser ou não ser: eis a questão.
Oh, querida que questão mal parida.
A questão política.
Não precisas nem ser gente
para teres importância política.
Basta ser petróleo, ração,
qualquer derivado, ou até
uma mesa de conferência cuja forma
vem sendo discutida meses a fio.

Enquanto isso, os homens se matam,
os animais são massacrados,
as casas queimadas,
os campos se tornam agrestes
como nas épocas passadas
e menos políticas.

* Escritora polonesa, Prémio Nobel de Literatura 1996



Escrito por POSTADO POR GLÓRIA às 13h42
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O poeta Fabrício Carpinejar

Mulher perdigueira

A mulher perdigueira sofre um terrível preconceito no amor. Como se fosse um crime desejar alguém com toda intensidade. Ela não deveria confessar o que pensa ou exigir mais romance. Tem que se controlar, fingir que não está incomodada, mentir que não ficou machucada por alguma grosseria, omitir que não viu a cantada do seu parceiro para outra.

Ela é vista como uma figura perigosa. Não pode criar saudade das banalidades, extrapolar a cota de telefonemas e perguntas. É condenada a se desculpar pelo excesso de cuidado. Pedir perdão pelo ciúme, pelo descontrole, pela insistência de sua boca.

Exige-se que seja educada. Ora, só o morto é educado.

O homem inventou de discriminá-la. Em nome do futebol. Para honrar a saída com os amigos. Para proteger suas manias. Diz que não quer uma mulher o perseguindo. Que procura uma figura submissa e controlada que não pegue no seu pé.

Eu quero. Quero uma mulher segurando meus dois pés. Segurar os dois pés é carregar no colo.

Porque amar não é um vexame. Escândalo mesmo é a indiferença."
 
-----------------

Chega um momento
em que somos aves na noite,
pura plumagem, dormindo de pé,

com a cabeça encolhida.
O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo. 


----------
Fazer as coisas pela metade 
é minha maneira de terminá-las. 

Os poemas aqui publicados integram o livro inédito Cinco Marias.
--------------------

Deveria deixar a vida também criar minhas crianças. Educação de qualidade é guarda partilhada com o mundo. (no Twitter)



Escrito por POSTADO POR GLÓRIA às 23h46
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LIVRO INDICADO

ESCOLAS & HOSPÍCIOS

ANTONIO DA COSTA NETO

“Nada mais presente na escola do que a monotonia, a rotina mórbida, a falta de projeto, de futuro, de surpresas, de mistérios e suspenses. O dia a dia escolar é morno, sem novidades, muito menos que medíocre. E, ao mesmo tempo, a vontade do aluno passa a ser erigida por outras pessoas, tornando-o um ser teleguiado, conduzido, acéfalo e desmotivado. Passando a viver assim uma espécie de pesadelo contínuo. Para muitos, um processo terrível, quase insuportável, do qual levará mágoas e traumas para toda a vida.”

"Por que as escolas continuam sendo estes covis da evidente falta de ética, de caráter, de bom-senso, de vontade política de acertar, de modificar as coisas, de melhorar o mundo? Por que os professores e professoras são tão pérfidos, mesquinhos, excessivamente burocráticos? Imbecis mesmo. Julgam-se tão preparados, cheios de diplomas. Mas são desprovidos de malícia, de dignidade, de amor, de senso, de verdades."

*** Saibam mais sobre esse escritor que conhece os bastidores da instituição escola, que descreve com fantástica precisão a realidade camuflada que ninguém quer enxergar, o massacre de nossas alunos nas escolas brasileiras. O autor é professor e em seu livro deparamos com a verdade nua e crua, nada do costumeiro corporativismo da classe e da famigerada choradeira por salários. Ao contrário, o professor diz que a maioria precisava devolver aos alunos o salário que recebem, já que não retornam em forma de dedicação e competência. Fiquei maravilhada com esta leitura.

Encontram mais informação sobre o autor no blog mudandoparadigmas



Escrito por Postado por Glória às 03h04
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Um pouco de devaneio

Confidências

por Sayonara Lino

 

Estou com muitas saudades das brincadeiras de infância, da época da escola, dos risos fáceis da adolescência, de encontrar amigos que não vejo há anos, que não vejo há meses, que não vejo desde a semana passada.

 Sinto falta de caminhar pelas praias do Rio, das aulas de yoga, de viajar longamente sem preocupações, de sair para dançar, de não ter hora para acordar, de ser mais leve, menos encanada, mais sorridente, menos desconfiada, mais aberta.

 Estou sentindo falta de pessoas que sei que estão para partir, antecipadamente. Sinto saudades do futuro, dos beijos e do amor que está para chegar.

 Quero cuidar muito bem da minha roda de afetos composta por todos os que prezo, ouvir mais que falar, ajudar mais que pedir ajuda, desenvolver tolerância, paciência e perdão, sempre.

Continuarei escutando Nando Reis todos os dias, usando a cor roxa, tomando café bem forte, lendo compulsivamente, comendo castanha-do-pará, escrevendo para desabafar.

 Continuarei.

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(*) Jornalista

Publicado no Comunique-se



Escrito por Glória às 23h38
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POESIA

ROMÉRIO RÔMULO

 

A poesia em matéria bruta

 

Tudo começou pelo homem,

Uivo da noite que contém miséria.

 

Quando pensarem um anjo, não sou eu!

 

Quanto de homem trago no meu corpo?

E quanto de bicho pela manhã?

 

Meu coração de torto se fendeu.

 

 

Resta buscar o que sobrou do amor.

 

-------------------

O poeta Romério Rômulo nasceu em Felixlândia, Minas Gerais. É professor de Economia Política da Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP.

O livro Matéria Bruta é da editora Altana, São Paulo, 2006.

 



Escrito por Glória às 02h44
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Livro imperdível

Escute, Zé-Ninguém!
Wilhelm Reich
 
Você teria derrubado os tiranos há muito tempo se no seu íntimo estivesse vivo e em perfeita saúde. No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade, mas hoje elas provêm da sua própria camada.
 



Escrito por Glória às 20h14
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Palavrório

 
O escritor Affonso Romano de San'Anna escreveu neste domingo, no jornal Estado de Minas, um texto imperdível. Ele fala de algo que também me incomoda: a distância entre a teoria e a prática, entre as palavras e a ação. Ando enojada de ver tanto palavrório, tanto evento de literatura e cinema, tantas matérias "culturais" na mídia, tanto academicismo, tanto isso tanto aquilo, mas poucos entendem a mão, poucos colocam o dedo na ferida.  "Todo artista tem de ir onde o povo está", como na canção “Nos Bailes da Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. E essa gente metida a besta ainda tem a cachimônia de chamar de "assistencialismo" aos que saem do discurso e põem a mão na massa.
 
Vejam trecho do artigo de ARS:
 
Certos poemas valem mais que mil palavras de economistas, sociólogos, filósofos e discursos de políticos. De repente,  deparo com um texto de um poeta africano desconhecido, lá de Malawi. Leio. Levo um baque. Está tudo ali. O texto fala mais que qualquer estatística, que qualquer discurso. O poeta cristalizou em poucas palavras toda a nossa perplexidade, impotência e remorso diante da pobreza. Vejam:

De um poeta anônimo do Malawi, África

Eu tinha fome e vocês fundaram um clube humanitário
para discutir a minha fome.
Agradeço-lhes.

Eu estava na prisão
e vocês foram à igreja
rezar pela minha libertação.
Agradeço-lhes.

Eu estava nu
e vocês examinaram seriamente
as conseqüências de minha nudez.
Agradeço-lhes.

Eu estava doente
e vocês se ajoelharam
e agradeceram a Deus o dom da saúde.
Agradeço-lhes.

Eu não tinha casa
e vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
tão perto de Deus!

Mas eu continuo com fome
continuo só, nu, doente,
prisioneiro.
e tenho frio,
sem casa.



Escrito por Glória às 14h20
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