Palavrório
O escritor Affonso Romano de San'Anna escreveu neste domingo, no jornal Estado de Minas, um texto imperdível. Ele fala de algo que também me incomoda: a distância entre a teoria e a prática, entre as palavras e a ação. Ando enojada de ver tanto palavrório, tanto evento de literatura e cinema, tantas matérias "culturais" na mídia, tanto academicismo, tanto isso tanto aquilo, mas poucos entendem a mão, poucos colocam o dedo na ferida. "Todo artista tem de ir onde o povo está", como na canção “Nos Bailes da Vida”, de Milton Nascimento e Fernando Brant. E essa gente metida a besta ainda tem a cachimônia de chamar de "assistencialismo" aos que saem do discurso e põem a mão na massa.
Vejam trecho do artigo de ARS:
Certos poemas valem mais que mil palavras de economistas, sociólogos, filósofos e discursos de políticos. De repente, deparo com um texto de um poeta africano desconhecido, lá de Malawi. Leio. Levo um baque. Está tudo ali. O texto fala mais que qualquer estatística, que qualquer discurso. O poeta cristalizou em poucas palavras toda a nossa perplexidade, impotência e remorso diante da pobreza. Vejam:
De um poeta anônimo do Malawi, África
Eu tinha fome e vocês fundaram um clube humanitário
para discutir a minha fome.
Agradeço-lhes.
Eu estava na prisão
e vocês foram à igreja
rezar pela minha libertação.
Agradeço-lhes.
Eu estava nu
e vocês examinaram seriamente
as conseqüências de minha nudez.
Agradeço-lhes.
Eu estava doente
e vocês se ajoelharam
e agradeceram a Deus o dom da saúde.
Agradeço-lhes.
Eu não tinha casa
e vocês pregaram sobre o amor de Deus.
Vocês pareciam tão piedosos,
tão perto de Deus!
Mas eu continuo com fome
continuo só, nu, doente,
prisioneiro.
e tenho frio,
sem casa.