A palavra condenada
Escritores e jornalistas condenados pelo uso da palavra. O Judiciário contra a liberdade de expressão. A instituição Justiça em prol da pior das tiranias: a ditadura do silêncio
Eduardo Galeano disse tudo neste trecho do seu livro VOZES & CRÔNICAS
"Quando as palavras não podem ser mais dignas que o silêncio, é melhor a gente calar-se.
Nas longas noites de insônia e nos dias de desânimo, aparece uma mosca que fica zumbindo dentro da cabeça da gente: VALE A PENA ESCREVER? Será que as palavras sobreviverão em meio aos adeuses e aos crimes? Tem sentido este ofício que a gente escolheu - ou pelo qual a gente foi escolhido?"
Eu sou um americano do Sul. Nasci em Montevidéo e lá dirigi alguns jornais e revistas sucessivamente fechados pelo governo ou pelos credores. Escrevi vários livros - que estão todos proibidos. (...) Em Buenos Aires, fundamos "Cris", a revista cultural de maior tiragem na história da língua espanhola. Publicamos o último número em agosto de 1976, porque não dava mais para continuar.
Quando as palavras não podem ser mais dignas que o silêncio, é melhor a gente calar-se. E esperar!
Em tempos tão tumultuados, o ofício de escrever torna-se um perigo. Em circunstâncias assim, ou a gente recupera o orgulho e a alegria da palavra ou perde o respeito por ela - para sempre.
Se queremos trabalhar por uma literatura que ajude a revelar a voz dos que não têm voz, como podemos atuar dentro dessa realidade? Será que podemos nos fazer ouvir em meio a uma cultura surda e muda? Nossas culturas são repúblicas do silêncio. A pequena liberdade do escritor não seria, às vezes, a prova de seu fracasso? Até onde e até quem podemos chegar?
Que bela tarefa a de anunciar o mundo dos justos e dos livres! Que função mais digna, essa de dizer não ao sistema de fome e das cadeias - visíveis ou invisíveis! Até onde os donos do poder nos dão permissão de ir?"