Por que só o cigarro?

O ser humano é realmente um bicho surpreendente. Ando intrigada com essa campanha terrorista contra o cigarro, não só pelo fanatismo, como pelo perigo que ela expõe as pessoas. O não-fumante acaba se achando o rei da cocada preta e escorrega incauto pelo ralo de todas as outras circunstâncias causadores de doenças como, por exemplo, a notícia abaixo sobre refrigerantes. A informação não é nova, só não é levada em conta, como muitas outras, desde que não se refiram a cigarro.

Tem até uma piadinha que ilustra muito bem a questão. Após consultar um paciente, o médico passou-lhe a receita acompanhada de uma recomendação de que não fumasse mais do que quatro cigarros por dia e voltasse daí a um mês para se avaliar o tratamento. Assim foi, passados os 30 dias, o paciente retorna e a primeira pergunta do médico foi se fizera tudo conforme ele recomendara, ao que ele respondeu: "sim, doutor, fiz tudo, só fumar os quatro cigarros é que foi difícil...". Pois é, o doente nem fumava.

É o que acontece: tudo é atribuído ao cigarro. Aí tira-se o cigarro de circulação. Lá no restaurante, o não-fumante sente-se glorioso e seguro, enquanto se alimenta de BENZENO* contido nos refrigerantes, veneno em vários vegetais, gorduras e carboidratos que vão entupir suas artérias, carne processada com aditivos químicos que causam vários tipos de câncer, a fumaça (invisível) contida no churrasco. Um coquetel de veneno. Mas sem cigarro por perto, a família come feliz.

Então vamos à notícia de hoje:

Sete refrigerantes têm substância cancerígena

Teste avaliou a presença de benzeno em 24 bebidas; em duas delas, nível é alto. Associação verificou ainda a presença de adoçantes não declarados em um rótulo e corantes ligados a alergia e hiperatividade em crianças

Em uma pesquisa com 24 refrigerantes, a Pro Teste - Associação Brasileira de Defesa do Consumidor verificou que 7 têm benzeno, substância potencialmente cancerígena.
O benzeno surge da reação de um conservante, o benzoato de sódio, com a vitamina C. Como não há regra para a quantidade do composto em refrigerantes, usou-se o limite para água potável: 5 microgramas por litro.
Os casos mais preocupantes foram o da Sukita Zero, que tinha 20 microgramas, e o da Fanta Light, com 7,5 microgramas. Os outros cinco produtos estavam abaixo desse limite.
Fernanda Ribeiro, técnica da Pro Teste, diz que é difícil estudar a relação direta entre o benzeno e o câncer em humanos, mas que já se sabe que a substância tem alto potencial carcinogênico e que, se consumida regularmente, pode favorecer tumores. "Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), não há limite seguro para ingestão dessa substância", diz.
A química Arline Abel Arcuri, pesquisadora da Fundacentro (Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho) e integrante da Comissão Nacional Permanente do Benzeno, diz que o composto vem sendo relacionado especialmente a leucemias e, mais recentemente, também ao linfoma.
O fato de entrar em contato com o benzeno não significa necessariamente que a pessoa vá ter câncer -há organismos mais e menos suscetíveis. "Mas não somos um tubo de ensaio para saber se resistimos ou não, e não há limites seguros de tolerância. O ideal, então, é não consumir", diz Arcuri.
Adoçantes e corantes
A pesquisa da Pro Teste encontrou, ainda, adoçantes na versão tradicional do Grapette, não informados no rótulo. O problema é maior no caso de crianças, que devem ingerir menos adoçantes.
Foram reprovados outros seis produtos que tinham os corantes amarelo crepúsculo -que, segundo estudos, favorece a hiperatividade infantil- e amarelo tartrazina -com alto potencial alergênico. "O amarelo crepúsculo já foi proibido na Europa. E muitas crianças têm alergia a alguns alimentos e, depois, descobre-se que o problema é o amarelo tartrazina", diz Ribeiro. Os corantes são aprovados no Brasil, mas, para a Pro Teste, as empresas deveriam substituí-los por outros que não sejam problemáticos, assim como no caso do ácido benzoico. "É um problema fácil de ser resolvido", diz Ribeiro. (Folha de São Paulo, 5/5/09, caderno SAÚDE)

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* O benzeno é pernicioso ao homem, atacando os tecidos que formam as células do sangue. Em ar muito contaminado, um adulto morre num prazo de cinco a dez minutos. Em ares não tão contaminados, as pessoas ficam com dor de cabeça, podendo ficar confuso e até inconsciente. Esses sintomas desaparecem quando a pessoa volta a respirar ar puro. Comer ou beber alimentos contaminados pode provocar diarréia, vômitos, aumento dos batimentos cardíacos, coma e, finalmente, morte. O benzeno causa alterações genéticas, afeta a fertilidade humana e causa leucemia. Devido ao fato do benzeno estar contido em muitos produtos, é impossível remove-lo do nosso cotidiano. O que podemos fazer é ter cuidado em manusear os materiais que o contém, e alertar as pessoas que possam estar correndo riscos ambientais nas áreas que podem estar ou vir a ser contaminada.