Gente, o que falta na escola é humanidade
Tudo que sai na mídia sobre Educação traz a marca da mesmice e da desinformação. Ontem, 17/11, o jornal Estado de Minas trouxe um editorial com as falácias costumeiras. O título é "Uma lei histórica", referindo-se à aprovação pelo Senado Federal da ampliação para oito horas das aulas do ensino fundamental. Obviamente, ninguém ainda se deu conta de que se quatro horas são um fracasso, oito horas serão fracasso em dobro. Se, com quatro horas diárias, as escolas já expulsam milhões de alunos por ano, imaginem com oito horas. Vai ser uma avalanche de criança a ponta-pé fora da escola. Mas o que acontece dentro da escola não está na mira dos legisladores, como o aluno é tratado, como a escola é (des)cuidada, como a comunidade é impedida de fiscalizar a escola, nada disso, porque cobrar responsabiliadde e competência dos professores, diretores e secretárias de educação é um heresia. Onde já se viu isso? Essa gente está acima até da lei, da Constituição Federal. Já perdi a paciência há muito tempo, sorte que não perdi a esperança de acontecer um milagre neste país fazendo as pessoas acordarem para o triste fato de que o nosso sistema de ensino é obsoleto e pior, contaminado pelo descaso e até ódio aos alunos.
Vamos ao editorial com trechos e meus comentários:
Trecho 1
"Mas não é por falta de normas constitucionais, leis, decretos e normas reguladoras que o ensino brasileiro vai de mal a pior. Existem na área educacional milhares de leis, decretos e normas reguladoras. Mas lei não se transforma em dinheiro e atualmente a profissão de professor é a mais desvalorizada, sendo que os educadores da rede pública recebem média salarial de R$ 500 mensais, e até menos."
DINHEIRO - Como sempre começa falando em dinheiro: De onde tiraram que 500 reais não é um bom dinheiro? Coloquem essa quantia na mão de cada pobre no Brasil e nossa miséria acabaria. Isso não é "bom salário" para os ricos, a burguesia, a classe média, o que significa que são indivíduos dessas classes que vão para as escolas desprezar os filhos das classes populares que estão na rede pública.
PROFESSOR DESVALORIZADO - Outra mentira que de tanto repetir todos acreditam. Nunca vi uma profissão tão valorizada quanto professor. A imprensa só vê o lado do professor, a Justiça está sempre do lado do professor, a própria comunidade é incapaz de se posicionar contra os professores. Eles querem mais o quê? Uma torre de cristal?
Trecho 2
"A Lei Federal 234/2006 estabelece prazo de cinco anos (2007-2012) para que a União, estados e municípios implementem o ensino de oito horas. Alguém acredita? Só para o ano que vem as escolas públicas precisam de 350 mil professores capacitados (matemática, ciências, biologia, história, português etc.), sem nenhuma perspectiva de atendimento. Que atração poderão ter milhares de jovens formandos com salário tão baixo? "
OUTRA BOBAGEM - Abram inscrição de concurso para professores e verão a fila quilométrica que vai se formar. Ao contrário, todo mundo quer ser professor. Qual outra profissão trabalha meio horário, falta e entra de licença quando quer, aposenta com menos tempo que outros trabalhadores, tem ponte todo mês com as emendas de feriado, e o mais inusitado: não precisa apresentar resultado do seu trabalho, se a escola é um fracasso, se o aluno não aprende, problema dele. Não é uma maravilha uma profissão assim?
Trecho 3 (final)
"Hoje, a escola brasileira, com raras exceções, que atendem às minorias abastadas, mal ensinam ler mensagem, e os alunos diplomados não sabem fazer as quatro operações aritméticas. Inventaram modismos pedagógicos para quem pode pagar, e abandonaram a escola pública – que abriga mais de 80% do alunado – à própria sorte. Cabe ao presidente Lula assumir como prioritária a aula de tempo integral."
TOQUE DE MÁGICA - Mas não chega a ser cômico se não fosse trágico? Por fim o editorial apresenta a solução mágica: "aula de tempo integral" e o Presidente da República como milagreiro.
É, assim não dá para melhorar a Educação, os palpiteiros não viram o disco...
Abaixo a energia nuclear
Justiça suspende licença de Angra 3- Fiquei aliviada com a notícia de que a Justiça suspendeu temporariamente a licença da Usina Nuclear ANGRA 3.
Já passou da hora de se repensar o projeto de energia nuclear no Brasil.
Foi constatado que Angra dos Reis, sede das duas usinas nucleares brasileiras, tem o maior número de mortes por má-formações congênitas e anomalias cromossômicas do estado do Rio de Janeiro. Entre 1996 e 2005, houve 98,95 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes, quase 90% delas de recém-nascidos e crianças com menos de 4 anos.
Lembremos Chernobil
Além disso, quem não se lembra do acidente nuclear de Chernobil, em 1986, no qual um relatório da ONU de 2005 atribuiu 56 mortes até aquela data – 47 trabalhadores acidentados e 9 crianças com câncer de tireóide – e estimou que cerca de 4000 pessoas morrerão de doenças relacionadas ao acidente. A radiação em altos níveis foi detectada até em outros países.
A população precisa ser mais informada sobre os riscos dessas usinas e ter o direito de dizer NÃO À ENERGIA NUCLEAR.
Notícia, no mínimo, estranha...
Artigo do colunista Fernando Rodrigues na Folha de São Paulo informa um evento patrocinado aos juízes pela Febraban - Confederação Brasileira de Bancos - Leiam e avaliem se não é muito estranha essa confraria entre Judiciário e bancos. A imprensa faz bem em denunciar, aos juízes cabe uma satisfação à sociedade e à corregedoria averiguar se isso é "ético" e legal. Afinal, não está em voga cobrar ética dos outros poderes da República, que hoje faz aniversário?
Leiam a coluna na íntegra:
Os juízes e os patrocínios
Mais de 40 juízes desfrutaram o feriado de 7 de Setembro numa praia da Bahia. A Febraban pagou todas as despesas. Criticados, os juízes trataram o episódio com desdém. Consideram natural os bancos pagarem para serem ouvidos. Na ocasião, as instituições financeiras tentaram convencer os magistrados de que o juro brasileiro não é assim tão alto. A Febraban está na dela. Convida. Se os juízes aceitam, jogo jogado. Fazem tudo à luz do dia. Acham que assim não há problema.
Pois hoje a AMB (Associação dos Magistrados Brasileiros) abre seu 19º congresso. O tema é atual: "Desenvolvimento, uma questão de justiça". Será em Curitiba, no Paraná. Tudo à luz do dia. Quem fizer uma visita ao endereço www.amb.com.br encontrará a lista de patrocinadores. Bradesco, Vale do Rio do Doce, Banco do Brasil, Nestlé e Volkswagen. Tudo transparente, como as vitrines de Amsterdã.
Essas empresas têm algo em comum. São partes em ações na Justiça. O patrocínio pode não garantir a elas julgamentos camaradas. Mas revela o abismo entre certas instituições e a sociedade. O MST, por óbvio, não foi convidado a patrocinar o evento das excelências no Paraná.
Na abertura do encontro de hoje em Curitiba, os juízes terão uma amenidade inicial: a "graciosidade e a leveza de ginastas" brasileiros, inclusive a consagrada Daiane dos Santos. Ninguém é de ferro.
Quando houve o convescote na Bahia e suas atividades amenas, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) abriu um procedimento para verificar se era apropriado juízes irem a eventos dessa ordem. Até hoje não há decisão tomada. Não é fácil julgar tais atitudes.
Talvez por essa razão o CNJ terá pelo menos dois de seus integrantes no encontro de Curitiba. Poderão examinar de perto a relação entre juízes e patrocinadores.
Fonte: Folha de São Paulo - 15 de novembro de 2006