Mensagem do leitor
O prazer de dizer " NÃO"
Após ler o texto abaixo "Ó ofício demoníaco", um leitor escreveu-nos um pequeno ensaio sobre o sadismo nas instituições, que buscam sempre dificultar a vida das pessoas. "Para mim, demoníacas são todas essas atitudes que vemos por aí", diz ele, e explica:
Sobre o texto “Ó ofício demoníaco”, é de indignar mesmo...
Isso tudo é bem semelhante ao famoso prazer do “não”, palavrinha tão ouvida e comum nos órgãos públicos. O cidadão chega, após longa espera, se aproxima do funcionário e solicita alguma coisa a que tem direito constitucionalmente. Se tudo estiver direitinho, bem de acordo com a rotina de funcionamento do órgão, o cidadão sai atendido. Fugiu, porém, qualquer milímetro dessa rotina, aí vem o famoso “não”, e quase sempre dito com um prazer sádico. Até o Marquês é desbancado nesse momento, é superado pelo funcionário que estampa no rosto a alegria do “não”. E que milímetro é esse que fugiu da rotina ? Diversas são as razões para isso: por exemplo, chegar ao órgão público faltando um minuto para encerrar o expediente. “Ah, mas isso não é motivo para deixar de atender o cidadão!”, exclama alguém. Pois digo, não só é um dos motivos, como é um dos mais comuns.
E o que tem isso a ver com o caso do professor que se alegra com as notas baixas dos alunos, com a sua reprovação ? Tem tudo a ver. De novo o prazer do “não”. Ouvi certa vez um professor dizer que, com ele, aluno não tinha vez, nota dez não tirava. E ele, sadicamente, ainda acrescentou com ênfase: “mas não tira mesmo.”
Já vi também a alegria no rosto do policial pela multa aplicada a um carro estacionado numa rua onde a placa de trânsito indicava “estacionamento proibido”. De fato a infração do motorista-cidadão era "gravíssima": estacionara seu carro ali naquela rua num domingo, dia de trânsito morto e ruas vazias... O que pensar disto? Mais uma vez, alguém vem dizer que a Lei foi cumprida. Ora, às favas com essas leis. O homem foi feito para a lei, ou a lei feita para o homem? Como disse Cristo aos fariseus que murmuravam maliciosamente porque um paralítico fora curado num dia de sábado: “o homem não foi feito para o sábado, mas o sábado para o homem”.
E por aí afora, as coisas vão seguindo amordaçando o cidadão. E a burocracia, um dos cancros dos dias atuais? Qualquer dia, ser-nos-á exigida a certidão de nascimento do nosso tataravô.
E aí, pergunta-se de novo, o que pensar disto tudo, do caso do “não” do funcionário público; do professor que não dava nota dez para aluno nenhum; da alegria da multa ...???
Penso que há uma inversão de valores terrível. O prazer devia ser em dizer um “sim”, em atender às necessidades do cidadão; em dar dez ao aluno que merecer, em minimizar as exigências bobas que impedem o aluno de tirar a sua nota dez; em reconhecer que aquele cidadão não está atrapalhando ninguém e por isso pode estacionar o seu carro ali naquela rua num dia de domingo.
Não sei, parece que há um quê de auto-afirmação em todas essas pessoas quando agem assim. Afirmação de poder, de importância, de ser o detentor do destino de alguém. Não sou nenhum especialista em análise da mente humana, mas isso é o que acontece, é o que se vê todos os dias na nossa vida de cidadão. Lembro aqui de um antigo tema de uma dessas Campanhas da Fraternidade da Igreja Católica: “Descubra o prazer de servir”.
Para não dizer que só vejo o lado negativo das coisas, sou testemunha também da alegria de pessoas praticantes de ações nobres. Ouvi uma dessas pessoas dizer, depois de uma noite em claro prestando auxílio a uma mãe carente cuja filha pequena, muito doente, depois se restabeleceu graças a essa assistência. Foi de uma médica que ouvi essa frase logo depois: “gente, como faz bem à alma servir alguém, a alegria é tamanha que o prêmio é imediato, já recebi o meu pagamento.”
Ah, se o mundo todo fosse assim como o dessa médica, seria tão bom!
Marcos (aposentado de BH)
Escrito por Glória às 22h36
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Ó ofício demoníaco...
"Talvez uma vez em cada cem anos, uma pessoa pode ter sido arruinada por excesso de louvor, mas certamente que uma vez em cada minuto alguém morre por falta dele." Cecil G. Osborne
Daí minha profunda preocupação com nossas crianças educadas numa cultura autoritária na qual louvar é ser condescendente, permissivo, em linguagem popular "passar a mão na cabeça".
Eu me lembro na minha época de criança, e mesmo como professora, que havia sempre um grupo de alunos que tirava "nota 10", ou seja, o máximo. E a maioria alcançava pouco abaixo. Em suma, havia uma postura de valorizar os estudantes. Hoje, Deus nos livre de um aluno tirar nota máxima. Se isso acontecer, todos na escola ficarão preocupadíssimos, vamos reunir o Conselho de Classe, algo saiu errado. Mas se, ao contrário, a turma fracassar... maravilha!!! A professora é um portento, a escola é de alto nível.
Percebo hoje que as escolas, os professores - e aqui a crítica atinge mais as escolas privadas - não gostam disso, querem que a maioria dos alunos tire notas baixas. Sadismo? É possível. Na escola acontecem coisas que até Deus duvida. Tento analisar a questão e parece que entramos numa moda (a educação é cheia de modismos) de que escola boa é "escola difícil" e isso é medido pelas notas baixas. Um horror! Uma imensa pobreza de espírito. Como dizia Rimbaud: "tempo dos assassinos".
Quantas crianças atormentadas por esta falta de louvor que faz tanto bem ao desenvolvimento sadio da personalidade. Quantos adolescentes se sentindo "um zero à esquerda" porque as provas foram feitas para que eles fracassem. Eles não sabem disso e se julgam "burros" quando na verdade, burra é a escola que destrói a auto-estima dos alunos. Burra é a escola que exige o aluno acertar uma conta de dividir num tempo em se usa máquina para fazer contas. Burra é a escola que penaliza os erros, induzindo o aluno a desistir de aprender, já que não existe outra forma de aprender a não ser cometendo erros. Burra é a escola que usa caneta vermelha abusiva, irresponsável e prazerosamente.
Burra é essa escola que nos faz perder talentos, inteligências vivas e criadoras, e o pior: perder vidas.
Uma escola que ensina a infelicidade, como define a nossa escritora Adélia Prado:
Já não basta ser gente para encanecer de dor? Ainda têm as escolas que se aplicar neste esmero de esvaziar dos meninos seu desejo de bois, gramas e pequenos córregos? Ó ofício demoníaco de encher de areia e confusão o que ainda é puro e tenro cálice.
Escrito por Glória às 01h16
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Para muitas crianças, escola é lugar de violência, diz estudo da ONU
Agência Brasil - 12/10
Apesar de as instituições de ensino desempenharem um papel importante na proteção das crianças, para algumas delas, a escola é um local de constante violência
Um estudo da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado pelo secretário geral Kofi Annan, mostra que muitas crianças são vítimas de agressões físicas, formas humilhantes de punição psicológica e intimidação dentro das escolas. Castigos corporais também são comuns, embora a legislação de 106 países proibam essa prática.
“Quanto maior a desigualdade socioeconômica, maior é a violência em relação a comunidades populares, populações nos espaços de periferia, famílias, adolescentes e às próprias crianças”, afirmou a oficial de projetos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), Helena Oliveira.
O estudo também mostra que as meninas são as maiores vítimas de violência sexual praticada por professores ou por condiscípulos do sexo masculino. Segundo o estudo, isso só acontece porque o Estado é incapaz de fazer cumprir as leis anti-discriminação.
Para acabar com essa situação, a ONU recomenda que sejam adotadas leis para proibir castigos corporais nas escolas e estabelecimentos de ensino, além da adoção de mecanismos seguros para que as crianças a suas famílias possam denunciar atos de violência a que são submetidos.
O organismo internacional recomenda, ainda, o uso de estratégias pedagógicas não-violentas e adoção de medidas disciplinares que não sejam calcadas no medo ou na força física.
A pesquisa é baseada em relatórios enviados pelos países membros da ONU - dentre eles, o Brasil - e nas respostas de consultas feitas pelo Unicef. O documento analisa vários tipos de violência que ocorrem ao longo da vida da criança, dos primeiros meses de vida até os 18 anos, bem como os ambientes em que a violência física, psicológica ou sexual é cometida.
O estudo foi coordenado pelo especialista independente brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro, doutor em Ciência Política e diretor do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP). O documento foi produzido com o apoio do Unicef, da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Alto Comissariado para os Direitos Humanos e demais agências da ONU.
Categoria: TELEVISÃO
Escrito por Glória às 00h25
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Na Escola Municipal Rotary,
vigora o ditado "Pra quem é, bacalhau basta"
Fui informada de que a Escola Municipal Rôtary, no bairro Três Cruzes, não tem direção, que o mato cresce à volta e que está tomada de carrapatos. As famílias têm medo de colocar suas crianças nessa escola, que possui Pré e Ensino Fundamental de 1ª a 4ª série.
O desleixo com nossas escolas públicas não é novidade. Quando entro numa escola pública, lembro-me sempre daquele ditado antigo: "Pra quem é, bacalhau basta". O ditado é tão antigo que é do tempo que bacalhau era comida barata, sinônimo de porcaria, de coisa sem valor, sem prestígio.
É assim que as autoridades vêem as escolas públicas: pra bacalhau! São as crianças do povinho, do qual elas só querem os votos na época de eleição.
Sugeri às pessoas, que me passaram a informação, que procurassem a prefeitura, a autoridade responsável, para expor a situação de desleixo com a escola. Elas me olharam com aquele olhar perdido... Olhar de brasileiro que não conhece contato com as autoridades, que não sabe que tem direito, e o dever, de fiscalizar as instituições públicas.
E eu mesma me dei conta do absurdo da minha sugestão: eu que tento de todas as formas, que tenho acesso a meios de comunicação, que uso telefone, internet, jornais, que sou professora, que conheço a lei e os direitos das crianças, que estou há 42 anos na área da educação, que me considero uma cidadã e como tal luto pelo bem coletivo, eu não consigo contato, e quando consigo, não obtenho nem resposta. Como exigir dos alunos e das famílias, condicionados há séculos neste país a serem considerados "bacalhau", que eles consigam???
Por que uma escola tem de ficar jogada às traças? Por que as pessoas que trabalham no local não são capazes de agir como cidadãs e querer o melhor para seus alunos? Por que as funcionárias e as autoridades responsáveis não cuidam das escolas com a dedicação que as crianças merecem? E compromissadas com a eficência que o cargo lhes obriga?
Fica aqui, mais uma vez, a minha denúncia, o meu protesto, a minha indignação com essas autoridades que assumem função pública, mas não cuidam do que é público. Que recebem o recurso dos impostos pagos pelo povo, mas não usam com o respeito e a dignidade que a população tem direito, como está na Constituição Federal:
Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Escrito por Glória às 23h03
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Sociedade dos escritores mortos
"Somos todos escritores. Só que uns escrevem, outros não."
José Saramago
Quando Saramago disse isso, não sei se ele pensou nas escolas. Acho que não! Até mesmo um Prêmio Nobel não sabe das mazelas da escola. Mas, diante dessa frase, eu pensei na destrutiva capacidade da escola de tirar dos estudantes a vontade de escrever.
Sempre me lembro da minha filha mais velha que, ao aprender a ler e escrever com 5 anos de idade, diante da maravilha de poder se expressar através da escrita, danou a escrever textos enormes na escola, assim como bilhetinhos de amor para os familiares, escrevia para os pais, o avõ, coleguinhas, enfim, escrevia, escrevia, feliz da vida. Até que... Comecei a perceber os textos diminuindo ao ponto de mal escrever três a cinco linhas nos trabalhos escolares. E os bilhetinhos em casa escassearam. O que acontecera?
Nunca fui de ficar olhando trabalhos escolares de filho, não só por falta de tempo como por achar também que eles têm de se virar sozinhos, achando um absurdo a escola encomendar trabalhos que não estejam na capacidade do aluno dentro da série em que está.
Mas, diante do desânimo da menina, fui olhar os cadernos. E lá estava a ação criminosa: a título de correção, a escrita da aluna de cinco anos estava toda rabiscada de vermelho pela professora. E como elas gostam de acentuar erros, costumo dizer que sentem um prazer sádico de jogar enormes "Xs e Errados" em cima dos trabalhos das crianças. Não são capazes de ter a mínima empatia e imaginar a frustração dos alunos ao ver seus esforços coroados de correções totalmente descabidas. É como exigir que uma criança aprendendo a andar dê seus primeiros passos eretos, sem quedas, sem vacilar, como um adulto.
O resultado não podia ser outro: as crianças, os adolescentes vão tomando horror de escrever. O ato de escrever torna-se para ela um momento de humilhação, constrangimento e até vergonha. Vai-se a espontaneidade, condição fundamental para o prazer de se expressar através da escrita.
Fazem o mesmo com a leitura. "Leia este livro", ordena a professora. A criança, às vezes, até gosta. Aí vem a "prova" com cada pergunta para lá de absurda. Não interessa se o aluno gostou, se assimilou o conteúdo, se mexeu com a sua emoção, nada disso, a professora quer saber "Que narrador predomina na história: narrador-personagem ou narrador-observador?" (atenção: isso na 5ª série, não é cursinho de vestibular...)
Pobres crianças, pobres estudantes brasileiros!
E depois, os seus carrascos ainda se dão ao deguste de zombar do resultado do seu próprio trabalho de anular o gosto das crianças pela leitura e pela escrita. Alguns até gastam tempo e dinheiro (que dizem que não têm) na internet para ridicularizar seus alunos. Não têm nem mesmo a noção de que são eles os construtores de uma sociedade de escritores e leitores mortos. Como bem mostrou o filme "Sociedade dos poetas mortos".
Escrito por Glória às 01h05
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Diretor é exonerado
E os pais dos alunos estão formando uma comissão para processar a prefeitura
Sobre a notícia postada ontem de um guarda civil municipal, que obrigou cerca de 110 crianças a se prostrar de joelhos em um chão de pedra de brita, hoje tivemos uma boa notícia: o prefeito de Amparo, em São Paulo, foi exemplar e exonerou imediatamente o responsável pela guarda municipal.
É assim que se coibem os abusos e a violência contra criança. Se cada diretor(a) responsável pelos subordinados, que praticam maus-tratos contra criança e a população em geral, fosse despedido de seu cargo, não seria tão cômodo e rotineiro acobertar as denúncias.
E ainda diz na notícia que "A prefeitura terá, na próxima semana, uma reunião com os pais dos garotos. Segundo a assessoria de comunicação, os guardas municipais passarão por aulas de direitos humanos".
Ou seja, o prefeito dará uma satisfação a esses pais e se comprometerá com que fatos como o acontecido não voltem a se repetir.
Como eu sempre venho batendo na tecla: as autoridades são os responsáveis e, como tal, têm de ser cobradas pela comunidade.
E mais: O guarda será indiciado pelo crime previsto no artigo 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente, que sugere detenção de seis meses a dois anos para aquele que submeter crianças ou adolescentes a situação vexatória, e por abuso de autoridade, que prevê detenção de seis meses e demissão do cargo.
Escrito por Glória às 12h49
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